terça-feira, junho 12, 2007

Nus.


Foto de Margarida Araújo

Nus.


Despir não é apagar, é desenhar.
Esse sussurro de Carpinejar me fez divagar
nas vagas da alma que transpira
mesmo que o outro não mais a veja.

Como se o corpo se apagasse
para ser apenas o prazer do outro.
Como se a mão que toca a pele e a boca que a beija
não desenhassem os limites da entrega e do abandono.

A nudez não nasce para por fim, mas para dar início.
Se não podemos ser olhados desnudos
é porque as unhas daqueles olhos nos fazem sangrar.
Se queremos terminar depressa
é porque estivemos surdos para nossos próprios anseios.

A pele não mente nunca.
Ela transborda em amavios quando se deleita
e esfola, arde, se torna ácida e impenetrável
quando falta o desejo.

Só não vê quem apaga.
E quem não quer ser visto?
Ser desenhado pelas mãos do desejo do outro,
em movimentos inventados, inusitados, insuspeitados?

A distância entre o apagar do outro
e sua pintura pelos gestos do encontro
é como a distância entre a indiferença e o amor.
Quem ama, recria o ser amado.


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