terça-feira, fevereiro 20, 2007

No deserto de Itabira.




Foto de Paulo Bizarro.



No deserto de Itabira
(Conversa com a “Viagem na Família” de Drummond)


No deserto de Itabira,
Quantos silêncios...
Há uma solidão que não sei onde se esconde,
Uma ausência que se desfaz ausente,
Areia e pó a valsar nos cantos
Como reminiscências de outros ventos.

No deserto de Itabira
Desfaleço em meu suor
Escorrendo do rosto, como lágrimas,
Sob o sol escaldante
Que o mar de histórias me lança.

No deserto de Itabira
Minha infância me faz visita
Brincando de esconder e de achar
No jogo de claro e escuro
Que aos olhos parece miragem
Mas que as entranhas identificam
Como película de familiaridade.

O deserto de Itabira
Corrói o coração menino
Enferrujando o sangue que pulsa.
As veias conduzindo o irrisório riacho,
Já minguando em sua secura,
Entre as pedras que anunciariam a queda.

Ainda viva, a sombra de meu pai.
Caminha a meu lado,
mais companheira do que nunca,
como a despertar-me de sonhos esquecidos.
Não sei como pude me distrair
E conduzir meus passos olvidando-a.

Ainda viva, a sombra de meu pai
Cobre como véu minha própria imagem
De timbres, sinuosidades, ocasos.
Diáfora, segue repetindo, somando novos sentidos;
Diáfise, marca os contornos, distinguindo;
Diáfana, deixa da luz passar o que ilumina.

O tempo perdido
É um tempo que não se perde nunca.
Seu retorno insistente é o que nos ofusca
Contrariando nosso desejo de um devir.
Entre o dia e a noite,
propaga-se nas madrugadas que não adormecem.

O tempo perdido
Enche o peito de voracidade
Querendo engolir os próprios filhos do silêncio.
As asas se abrem em vôo mostrando sua sombra
Que rasteja no húmus para fecundar o solo.

O tempo perdido
Pesa uma tonelada
Quando perpetua o seqüestro de um desejo.
Arma ciladas tornando cegos e surdos
Os que são ávidos de ensejos.

O tempo perdido
Pode morrer.
Sua lápide conterá as flores e os dizeres
que anunciam um novo tempo.

Pois, as lembranças permanecem,
Enchem os olhos de sua verdade
Sem jamais renunciar.
Carregadas em seus tons pastéis
Ou em tonalidades sombrias
Têm o costume de imortalizar.


Pior que não ser dito
É não poder dizer.
A criança muitas vezes não pode escapar
Às dores do corpo e da alma que lhe infringem.
Esta criança espreitava os gestos
Violentos, rudes e imorais
Que desejou exterminar
Sem dizer uma só palavra.

Desejaria, uma só vez, atravessar
Sem estribeiras aquelas circunstâncias
Transmutando os ponteiros e
Regulando os amores
Para que as roupas e os papéis
Se cercassem de pudores.

Mas, o ar se torna rarefeito.
Uma dor apunhala novamente o peito,
Os segredos e as impunidades vividas no leito,
Estase reeditada neste parapeito
Cuja entrada parece não se converter
E o destino ameaça em se perverter.

“De que terão valido tantos sacrifícios?”,
É a pergunta que teima em dizer a seus recordos.
Dor em variados invólucros,
Doses, intensidades.
Dor em graus de consciência e inconsciência.
Dor em diferentes partes do corpo físico
E do corpo erógeno, desejante.

E o que dizer da força que os conduziu a tais encruzilhadas
Que do momento insólito nascia o poeta?
Qual a coragem do pai que enlevou seu nome
Sendo o homem necessário a seu drama,
Na corrente que traía as antigas bandeiras
Desbravadoras cruéis numa terra ainda sem nome?

Parricídio, eis o nome necessário.
Do menino que se torna homem
Um sonho de futuro figurando no espaço infindo
A luta do antigo e do vindouro dentro de si
Já não podendo suportar o peso dos antepassados.

A tragédia sempre esteve ali.
E sempre há de lhe acompanhar,
Seja na forma de sombra, de pegadas ou
De sua imagem no espelho.
Inescapável como o ar.

Das maiores às mais sutis,
Cada uma recusando redenção,
Ardendo na pele como queimadura a ferro,
No estômago como fome insaciável,
No âmago do ser como ofensa imperdoável.

Fala, fala, fala, fala
o poeta, sem cessar, sua fala mansa.
Cobrindo de amor cada mágoa,
Acarinhando de beleza cada chaga,
Abrindo caminho com a enxada
Na corredeira das mesmas águas.

Entranhar-se passa a ser condição,
Que teu pai ainda guarda um abraço,
Que teus braços ainda aguardam.
Que os sinos anunciarão na igreja
Mesmo que ninguém os veja,
Anjos e arcanjos vertendo flores de perdão.

Que por mais que doam as bofetadas,
Por mais que humilhe o alimento negado,
Por mais que desonre o amor desmembrado,
Por mais que envergonhe a solidão abandonada,
Há brasas que mantêm a chama acesa
De um amor que cavalga acima das nuvens.

O mar do sangue que compartilhamos
Flui e revela o que se mantém o mesmo no outro.
Filho de peixe não pita seu cigarro,
Mergulha em águas mais profundas.

Mas, o tempo que revela
Nunca se atrasa,
Jamais se adianta.
Sabedor das tristezas que apavoram os homens
Prepara a ceia para sua chegada,
Quando visões e vislumbres encherão a boca de novos sabores
Preparando o coração para o encontro.

E, só então, nos conhecermos!


Denise Gomes.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Para Mari.

Foto de José Manoel Durão.

Para Mari.

Acreditas em poesia?

Pois poesia está em tudo.
Na maneira como despertamos,
no bom dia que espalhamos,
no sorriso que comungamos,
nos olhares que trocamos,
nas idéias que pensamos,
nos lugares aonde vamos,
na música que ousamos,
no rosto que estampamos.

Acreditar em poesia é ser poliglota,
pois não apenas o mel pode ser doce,
não apenas as estrelas têm seu próprio brilho,
não apenas Deus é puro amor
não é apenas a flor que desabrocha.

Acreditar em poesia é ser vidente,
acreditar na beleza da vida e que ela pode ser plena,
apostar que resolveremos o problema,
que a alma é grande e que a tristeza é serena,
que são os detalhes que conotam a cena.

Acreditar em poesia faz a gente esquecer um pouco de quem a gente é
e pensar que podemos estar em muitos lugares ao mesmo tempo,
que podemos mudar o sofrimento,
que podemos voltar e avançar no tempo,
que podemos voar e ser invisíveis como o vento.

Acreditar em poesia faz a gente desconfiar de que também somos poetas em nossa lida
e que devemos apreciar os poemas que escrevemos com a nossa vida.

15/01/2007
Dina.