domingo, abril 06, 2014

Solidão

Sempre decanta um sopro de solidão
Quando o movimento do dia se deita.
A noite nos envolve em seus lençóis
Bela como uma sereia
E nos promete tanta ventura....
Só nos resta sonhar.

terça-feira, março 25, 2014

RECEITA DE MULHER

RECEITA DE MULHER.

Como recipiente, 
pode hospedar energias em formas variadas, 
sólidas, 
líquidas, 
gasosas, 
espirituais, 
subjetivas, 
intocáveis e, até mesmo, 
insondáveis.

Como vinho,
pode enebriar os humores,
tingir os momentos,
adocicar a vida,
e enternecer a tarde,
amadurecendo no tempo dos encontros.

O recipiente pode ser frágil
e rachar se uma pedra cair com seu peso e suas arestas.
O vinho pode embebedar e manchar até a alma.

Apenas no encontro o recipiente e o vinho poderão ser
ocupado e sorvido,
cada um a seu tempo.

Pode ter um encanto natural,
que convida a gente a sentar em seu colo.
Com um simples olhar acompanhado de um sorriso.
Um lugar confortável que passa segurança.

Pode falar sem arrogância ou certeza:
ser capaz de transitar no incerto e no feio,
no escuro e no áspero
com leveza e calma,
sem afobar a quem se aflige nestes terrenos perigosos.
Pode falar como uma mão que apóia e conduz.

E, então, dançar livremente!
Estando atenta aos ritmos,
aos passos descompassados,
aos afobamentos e hesitações
incluindo tudo isso numa coreografia de encontrar.

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quarta-feira, novembro 13, 2013

Torso

Meus músculos
Contraem a dor do não vivido
Como uma doença

Pedem repouso
Trégua
Água

Lançam sobre minha pele
O sal com que alimentarei
Meus olhos

Quase em tetania
Deprimem a alma
Torturada por dentro

Inquieta
Agito todo meu corpo
Em busca de esquecimento

Corro, coro
Um vermelho quente e maduro
De nudez mordaz

Meu dorso se torce todo
Empunhando uma navalha
Contra si mesmo

Exausta,
Sigo os sinais dos tempos
Anunciando seu fim


quarta-feira, novembro 06, 2013

Titubeio

Do outro lado
Eram sombras
E a dor do mundo
Encolhida no corpo franzino
Do menino ainda

Do lado de cá
Um deserto
Além do horizonte cobria
Escaldando
A pele maltratada

Em gestos de candura
Cada flor 
No seu tempo brotava
Cada sonoridade
Sua dor decantava

Sem me esconder
Ou me mostrar
Eu caminhava só
Sentidos os olhos 
Perplexo o coração 

Lá e cá
Uma madrugada
Enebriada
Libertou os sonhos
Afrouxou os cintos
Brincou com a esperança 

Cá e lá
O sol da manhã
Cegou o desejo
Encabulou as mãos
E, vacilantes,
Aguardam a lua nova

...

...



terça-feira, agosto 13, 2013

Efigênia


Guarde minhas cinzas
para uma tarde ensolarada
de maio.

Espere o vento,
a brisa
e deixe voar.

Ande devagar
saboreando o desenho branco
no piso vermelho.

Admire as flores no umbral,
o delicado desenho
feito do duro metal.

Observe a luz refletida nas nuvens
tocando arranha-céus,
conversando com Deus.

Ouça seu coração batendo irresoluto
na saudade de tantas histórias que,
como águas turvas,
correram lá em baixo e sobre o viaduto.


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Na curva



Um bom começo
...
é um bom começo

Correr para onde?
O que buscar? 
Irei alcançar?

Sim. Quem está na curva 
do tempo
vivido e por viver
almeja encontrar

"Será que consigo?"
Sim. Encontrar consigo.

Saber que existe um fim
nos dá asas

Voe

.

Adeus, menino



Estradas de céu levam mais longe
Como voar?
Juntar a bagagem necessária
Deixar para trás
Olhar em riste
Dois mundos
Duas vidas
Hoje e depois

Partir

Quem fica
Quem vai

Uma floresta adensa em mim
Selvagem e incauta
Pulso uma dor prateada
Me afogo
Cega, já não sei:
Prá quê tudo isso?

Tudo é tão ligeiro
Eu não

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