segunda-feira, outubro 22, 2007

Infância.

Temo que não me compreendas. Bebo da fonte de Caeiro Manoel, Pessoa sempre a me guiar. A infância a busquei no poético, a reencontrei na poesia. Vivo remoçando, revirando do avesso os conceitos que me fizeram deixar de ser livre para inventar o impossível.
Rodopio como o peão e vôo alto como a pipa. Quando retorno, não sou mais a mesma.
Canto a vida e o encanto. Infância é coisa de Egberto, do Palhaço mais sublime e enfeitiçado de todo o planeta música. Também não me compreendes ao oferecer conselhos. Os conselhos foram feitos para ficar armazenados em cartilhas muito chatas e antigas: imóveis, colossais e retrógrados.
Sempre obsoletos. Se chegam onde não há espaço para eles, são rechaçados como intrusos. Se chegam onde já encontram morada, passam desapercebidos ou são tidos como ingenuidades. Melhor saborear a tarde tomando chá de primavera, sonhos recheados de esperança e licor de bobagem, para não esquecer de fugir. O que fazer quando a criança aparece na soleira assustada, saudosa, sábia e cheia de amor para ensinar? Quando o ontem bate à nossa porta pedindo hospedagem, tiramos de nossos armários as mais solenes roupas, cobrimo-lo de fantasias ultrapassadas e festejamos os mortos. Façamos diferente: este nosso hóspede merece novas roupas, sem cheiro de mofo, merece ser coberto de carinho e festejado como um novo amigo. Pessoa repleta de surpresas e inusitado, com uma árvore cheia de troncos na cabeça, contando histórias de encontros e desencontros, juntar e separar. Pessoa com medo de sombra e de escuro, que precisa ser acolhida antes de se deixar adormecer no colo do amigo recém encontrado. Pessoa delicada e amorosa, desejosa de entrar e ficar, pedindo um copo de minutos bem longos para prozear.
Denise Gomes.