domingo, maio 25, 2008

Homem caleidoscópio.



Foto de Antônio Durães


Homem caleidoscópio.


Homem,
teu caleidoscópio me fascina
revelando faces
fases
matizes
viezes
do teu viver extemporâneo
mitigado de contradições
acolhidas
numa estética barroca.
Homem tão forte
guerreiro,
protetor,
justo.
Pesam as balanças
em caminhos cruzados que jamais se encontram.
Teu coração se aperta
Cai uma lágrima sobre o tatami
Numa luta em que apenas tu
tens a perder.

Meu homem,
vens do meu ventre
ávido de teus amores
e de teus furores.
Tua pele,
tão sensível,
que curas com tuas próprias lambidas
Teus músculos,
tão vigorosos,
que ardem do extenuante esforço
Tua labuta,
incansável,
que já não preenche o vazio da alma.

Deixa-me cuidar de ti.
Banhar tua pele em alfazema
acariciando,
soprando,
aliviando tuas feridas.
Massagear teus músculos
relaxando,
desatando os nós,
dividindo contigo o peso dos teus dias.
Quem sabe, reduzir a faina
ofertando momentos de prazer
e cumplicidade
trazendo o sonho para as tuas noites.
Deixa-me ser
o repouso do guerreiro.


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quarta-feira, maio 21, 2008

Trapezista



Foto de Joaquim Fial



Trapezista



Serei tua rede, quando,

porventura,

o chão se abrir sob teus pés.


Do amor entendo um pouco,

pois me ensinas a cada instante.


Todo gesto em ti é amoroso.

Tudo em procurar alcançar,

tudo em desejar se encontrar.


Serei eu teu esconderijo,

quando,

no inverno próximo,

necessitares abrigo.
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Aquecerei tuas frias tardes,

acobertando a dor

no calor do meu colo,

na suavidade da carícia que minha língua deitará sobre a tua pele,

aliviando tua carne maltrada,

na firmeza com que vou segurar tuas mãos,

para jamais esqueceres que tens para onde ir.


Serei tua canção,

quando, porventura,

teu coração falhar.

Entoarei teu ritmo,

para voltares a se escutar,

encontrando, novamente,

tua alegria.

Cantarei ao teu ouvido,

para me saberes real e tua.


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terça-feira, maio 20, 2008

Mínima III



Foto de Carlos C (O Maltês)



Paixão
Vida a se deixar
Sem aprisionar a morte

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Sombrio seria aprisionar a paixão para que ela não morresse.
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domingo, maio 18, 2008

domingo, maio 11, 2008

tua mãe




Foto de Fernando Quintinho Estevão



Se fosse tua mãe,

o desejaria iluminado

e o manteria sempre protegido

dos raios que assolassem sobre ti.


Se fosse eu tua mãe,

caminharias sempre

por terras férteis

pés descalços,

peito aberto,

alma resplandecente.


Se eu fosse tua mãe,

carregarias quimeras nos ombros,

verias tua imagem refletida em espelhos que não são de narciso

e viverias uma vida tão plena

que não temerias o derradeiro.


Se pudesse eu ser tua mãe,

nascerias do amor do homem e da mulher,

da carne na carne,

feliz do desejo que te fez homem,

sempre seguro da minha presença.

Jamais experimentarias o desamparo.


Se eu fosse tua mãe,

te amaria como jamais alguém sonhou ser amado,
orgulhosa da mãe cautelosa e amorosa que reside em mim.


Denise Gomes.


sexta-feira, maio 09, 2008

Crisálida


Foto de Gustavo Boaventura




Tudo é possível até a encruzilhada.

Leste e oeste dividem nosso norte

Havendo ali chegado

De acaso e quereres intransitivos.


Cabelos ao vento, bolsos vazios

Negam garantias de desapego.

A pele curtida do sol

É o avesso da armadura.


Solene é o instante imóvel.

Paralisia do diafragma, suspenção do arbítrio.

Diante do desígnio infinito

Cada lagarta repudia a seda.


Denise Gomes.