segunda-feira, junho 30, 2008

Vindouro

Foto de Vasco Oliveira

Vindouro


Das folhas verdes
não vemos o inverno
Folgamos livres
de pesar ou temor

O destino
é um canteiro de obras
Sem aviso
ou contra-mão

Sobre a lápide estreita
coberta de flores
jaz a primavera
jurada de vida
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Quimeras

Foto de Eduardo Almeida
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Quimeras


Nunca te prometi
rosas vermelhas.
Mas, o que são palavras?
Gostaria de ter enviado.

A distância entre o que foi
e o que poderia ter sido.
Ah! As distâncias!
Sempre a te ofuscar de mim.

Lado a lado duas quimeras
gotejam um aljôfar de candura.
Teu sangue e teu espinho
sempre a despetalar-me.
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domingo, junho 29, 2008

Artesão

Foto de JMF Coutinho [José M F Coutinho]
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Artesão
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Segura minha mão
ao modo do artesão
fazendo-me viver
por obra do teu querer.
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Conforma meus movimentos
com a firmeza de teu pinçar
dando vida ao não nascido
nessa mulher por rebentar.
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Faz do meu barro
a massa do teu pão
alimentando tua alma
no leito do meu vulcão.
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Mãos de uma vida


Foto de Luis Ventura
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Mãos de uma vida
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Já não trago tabaco, vinho,
ou mãos vazias.
Depois de tanto caminhar,
peso sobre a bengala.
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Doces os frutos colhidos,
amargas suas raízes
arrancadas ao dissabor
de um tempo que não vivi.
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Tateio com o rosto ao vento
a ver que ares sopram do horizonte.
Selo meu cavalo mais manso
pois, longe não vou mais, não.
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Tua mão

Foto de Alberto Alves
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Tua mão
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A mão que me segura
é aquela em que me pego
Leve, se oferece
sem pressa ou opressão
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Oscilo no ar
entre dançar e cair
No desenho dos meus passos
estão teus dedos a conduzir
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Seu toque abre meus olhos
me tira da escuridão
O mundo, então, se oferece
a meus pés no tato da mão.
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quinta-feira, junho 12, 2008

Em si mesmo.



Foto de Inácio Silva
www.inaciosilva.com


Em si mesmo



Adentrou no mar revolto
como era de seu costume
impossível saber quando retornaria



O turbilhão o tomava todo
lambendo sua pele com o sal
torcendo seu corpo com as ondas
deixando-o sem fôlego nas águas turvas e violentas


Não que isso o assustasse
Era o seu refúgio
Lugar de reencontrar o elo perdido
quando nem ele mesmo dava notícia de si


Aquela solidão era necessária
assim como o desassossego


Ausente da praia podia se espraiar
mergulhar em busca do que não sabia
converter dias em eternidade
sendo ele mesmo a única medida
a única referência
âncora e vela
correnteza e ventania.


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quinta-feira, junho 05, 2008


Foto de Ricardo Cordeiro
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Uma lua me sorriu
Crescente


Um vórtice de cor púrpura
Me tirou do chão e me lançou aos céus
Onde flutuei como luz
Ora dourada, ora prateada
Ficando cega
Virando espuma
Morrendo no mar
Ganhando asas.
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