quarta-feira, junho 13, 2007

Desvão.

Foto de Mário Alexandre Lopes

Desvão.



O perfume das rosas um dia se esvai.
É um dia de entardecer.

As frutas na fruteira tornam-se cinzas
e a língua fica surda para o seu sabor.

O vermelho, com sua volúpia, anoitece
restando uma claridade ofuscante.

Não é cedo demais?
Indaga o coração encurralado entre a mão e o céu.

O jasmim orvalha suavidade
Como se o jardim ainda pudesse florir.





terça-feira, junho 12, 2007

Nus.


Foto de Margarida Araújo

Nus.


Despir não é apagar, é desenhar.
Esse sussurro de Carpinejar me fez divagar
nas vagas da alma que transpira
mesmo que o outro não mais a veja.

Como se o corpo se apagasse
para ser apenas o prazer do outro.
Como se a mão que toca a pele e a boca que a beija
não desenhassem os limites da entrega e do abandono.

A nudez não nasce para por fim, mas para dar início.
Se não podemos ser olhados desnudos
é porque as unhas daqueles olhos nos fazem sangrar.
Se queremos terminar depressa
é porque estivemos surdos para nossos próprios anseios.

A pele não mente nunca.
Ela transborda em amavios quando se deleita
e esfola, arde, se torna ácida e impenetrável
quando falta o desejo.

Só não vê quem apaga.
E quem não quer ser visto?
Ser desenhado pelas mãos do desejo do outro,
em movimentos inventados, inusitados, insuspeitados?

A distância entre o apagar do outro
e sua pintura pelos gestos do encontro
é como a distância entre a indiferença e o amor.
Quem ama, recria o ser amado.