sábado, dezembro 30, 2006

Tem porão.


Foto de Adilson Faltz
http://www.1000imagens.com/autor.asp?idautor=088


Tem porão.

De pés descalços na vida
Resta perambular.

Os dias iguais
Não têm areia contando horas

Sonhos de ilusionista
Escapam da luz e da sombra das ruas.

Marcam como riscos
O vazio da solitária.
Clausura do desalmado.

Joy





Joy.


O medo faz tremer o que eu tenho dentro.
E sai para fora gritando.
Quanto mais grita, menos se escuta.

O medo me faz temer o que eu tenho dentro.
E calo a voz que não tem palavras.
Quanto mais cala, mais escuto.

Há um perigo rondando, à espreita.
Fogo no chão, forro abaixo, faca no peito, forca no pescoço.
E um pedido cada vez mais perceptível de proteção contra o que mora dentro.

O que mora dentro não pode escapar.
Círculo de giz para prender peru.
Casco sem o qual o jaboti já não é.

Ser e não ser, quase uma morte.
Não ser e querer ser, quase uma esperança.
Querer ser e não saber, quase um desespero.

Olhar e não saber o que vê.
Ver e suspeitar do inusitado.
Reparar o que clama por cuidado.

Um menino nasceu dentro de um homem.
Olha o menino.
Olha o menino.
Menino.
Me nino.

Flores.

Foto: Ricardo Araujo



Flores.


Há rumores de que falta água.
As folhas do lírio estão lambendo o chão.

O cacto parece embebido.
Satisfaz a pouca rega.

Saciedade difere de flor.

Já tentou agradar uma violeta?
Exige luminosidade,
Umidade,
Dosagem,
Adubagem,
Freqüência,
Calor... tudo na medida exata.

Uma vez experimentei o prazer de ver minhas violetas florindo o ano todo,
Imensas nas folhas, robustas na beleza.

Nunca mais fui tão feliz com uma violeta.

Cada flor é uma flor,
Cada rega depende da flor para ser boa.
Se há rumores de que a água é escassa
Quem rumora é flor que sofre de secura.

Eu e a noite.

Foto: Carlos Campos


Eu e a noite.


Hoje é demais 

estar só.
Nem o cigarro 

me faz companhia.

A lua me fita, 

sem qualquer compromisso.
A noite me abraça

e eu fico nisso.

Uma mulher.

(Foto: José Manuel Durão)
Uma mulher.


Uma mulher é apenas uma mulher.
Mas não basta.
Tem que ter qualquer coisa...
De bela, de forte, de sensível, de submissa, de rebelde, de irreverente, de doce, de suave, de séria, de alegre, de brincalhona e de temível.

Uma mulher é apenas uma mulher.
Mas não pode.
Tem que evitar qualquer coisa...
De feiúra, de fraqueza, de dominação, de acomodação, de sem graceza, de amargo, de ácido, de salubre, de contundência, de promíscua, de triste, de desmancha prazeres ou de transparência.

Uma mulher é apenas uma mulher.
Tudo o que é,
Nem tudo o que gostaria de ser,
Nada do que não lhe permitem ser,
Um pouco daquilo que escapa,
Muito do que foi acostumada e do que desejam que ela seja,
Sempre fazendo o contrário,
Às vezes o inusitado, surpreendendo,
Sutilmente igual a si mesma,
Bastante do que jamais será.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Grãos de areia.

(Foto: Rui Vale de Sousa)


Grãos de areia.

As ondas estão desmanchando os castelos,
A areia ressurge como caminho a ser trilhado.
Os sonhos que sonhava acordada
Dão origem a uma visão mais nítida do lugar que ocupo.

Os suspiros, que esvaziavam meus pulmões de ar,
Enchendo-os de ansiedade,
Dão lugar a uma tristeza fértil.
Transito na dor de modo transformado.
Não a dor da ausência, da solidão, do esquecimento, da indiferença...
Dor de adeus, dor de fim.

Quem sabe agora eu volte a ter força para remar
E cruzar o oceano que me afasta de minha sensatez?
Belos castelos, aqueles.
Como dói vê-los apenas grãos de areia salgados pelo mar.

Voltar a ter apenas dois pés e duas mãos...
Que retorno doloroso, meu Deus!

O nascer e o por do sol,
Cavernas a explorar,
Montanhas a atravessar,
Na ausência de cumplicidade para os olhos
E sentido para os sentidos.

Não é o mundo que se desfaz, é um modo de vivê-lo,
Um modo de ser despertada por ele.

Onde buscar o encanto que me oferece como berço a todas as criaturas vivas?
Como espreitar as emoções que dão origem às palavras que ofereço a quem quer que me escute?
Quando voltarei a vislumbrar-me não mais como metade?
O grão de areia inventou a estrela do mar.
Que hei eu de inventar?
Sou lágrimas, sussurros, soluços.

Aqueles olhos que outrora brilhavam dentro de mim como fogos de artifício em noite de ano novo;
Aquela voz que quase não dizia, provocando minha imaginação a inventar histórias de encontros e desencontros;
Aquele ser, soberano na capacidade de me fazer feliz...
Feliz de ser eu mesma e de sentir tudo que sinto e de esperar tudo que espero e de criar tudo que crio.

Queria de volta aquela mágica que me permitia estar conectada comigo mesma.

Escuridão.
Sei que oculta a beleza do que não vejo.
E me ponho a imaginar como é belo, quase uma lembrança.
Curiosidade preciosa, que me impele a criar novas imagens e novos contornos!
Que este espírito não me abandone nunca,
pois as pessoas estão sempre a separar-se,
a dizer adeus.