quarta-feira, novembro 13, 2013

Torso

Meus músculos
Contraem a dor do não vivido
Como uma doença

Pedem repouso
Trégua
Água

Lançam sobre minha pele
O sal com que alimentarei
Meus olhos

Quase em tetania
Deprimem a alma
Torturada por dentro

Inquieta
Agito todo meu corpo
Em busca de esquecimento

Corro, coro
Um vermelho quente e maduro
De nudez mordaz

Meu dorso se torce todo
Empunhando uma navalha
Contra si mesmo

Exausta,
Sigo os sinais dos tempos
Anunciando seu fim


quarta-feira, novembro 06, 2013

Titubeio

Do outro lado
Eram sombras
E a dor do mundo
Encolhida no corpo franzino
Do menino ainda

Do lado de cá
Um deserto
Além do horizonte cobria
Escaldando
A pele maltratada

Em gestos de candura
Cada flor 
No seu tempo brotava
Cada sonoridade
Sua dor decantava

Sem me esconder
Ou me mostrar
Eu caminhava só
Sentidos os olhos 
Perplexo o coração 

Lá e cá
Uma madrugada
Enebriada
Libertou os sonhos
Afrouxou os cintos
Brincou com a esperança 

Cá e lá
O sol da manhã
Cegou o desejo
Encabulou as mãos
E, vacilantes,
Aguardam a lua nova

...

...



terça-feira, agosto 13, 2013

Efigênia


Guarde minhas cinzas
para uma tarde ensolarada
de maio.

Espere o vento,
a brisa
e deixe voar.

Ande devagar
saboreando o desenho branco
no piso vermelho.

Admire as flores no umbral,
o delicado desenho
feito do duro metal.

Observe a luz refletida nas nuvens
tocando arranha-céus,
conversando com Deus.

Ouça seu coração batendo irresoluto
na saudade de tantas histórias que,
como águas turvas,
correram lá em baixo e sobre o viaduto.


.

Na curva



Um bom começo
...
é um bom começo

Correr para onde?
O que buscar? 
Irei alcançar?

Sim. Quem está na curva 
do tempo
vivido e por viver
almeja encontrar

"Será que consigo?"
Sim. Encontrar consigo.

Saber que existe um fim
nos dá asas

Voe

.

Adeus, menino



Estradas de céu levam mais longe
Como voar?
Juntar a bagagem necessária
Deixar para trás
Olhar em riste
Dois mundos
Duas vidas
Hoje e depois

Partir

Quem fica
Quem vai

Uma floresta adensa em mim
Selvagem e incauta
Pulso uma dor prateada
Me afogo
Cega, já não sei:
Prá quê tudo isso?

Tudo é tão ligeiro
Eu não

.

Teu olhar



Tu passas
Nem me olhas
Como se um olhar nada fosse

Preferes ser cruel a ser doce?

Caminhas certeiro
como se nada levasses
no bolso ou nas mãos

Roubas assim
de mim
o momento sublime do encontro

Mesmo que sejas,
apenas naquele instante,
olhos nos olhos,
meu para sempre

.

domingo, abril 21, 2013

Minhas maçãs



Havia maçãs para todos os lados
Elas transbordavam
Queria detê-las 
Mas não podia...
Senti medo diante do tanto
Impossível escapar ou negar
Deliciosas maçãs
Transbordavam
Transbordavam
E eu ali
A sentir tudo isso
Sem poder te tocar

.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

De quando a saudade soluçou em meu leito



Desde o momento do raiar do sol
Quando tuas mãos viraram asas
E já não podias tocar a minha pele
Quando meu amor virou pedra
Golpeando meu seio com a dor da noite escura
Meu pensamento se vestiu de esquecimento
Para não sofrer os golpes da recordação
Desejou que desaparecesses
Para não mais os sinos do entardecer
Bradarem a ti em meu ventre concebido.

E quando tua voz penetrou em minha alma
Tocando cada resto de esperança decantado
E teu sorriso escorreu pelos meus olhos
Em rios de deleite e torpor da espera
Meus cabelos se emaranharam,
Cada artéria percutiu ondas de afogar e
Uma lua se guardou nos meus braços
Sonhando com tua vinda em prata e tempestade.

Mas, quando dedicaste a mim o mais belo dos poemas,
Aquele que seria o mais sublime de todos os tons,
A música das musicas, momento entre os momentos,
E meus ouvidos não puderam registrar
Apenas lágrimas correram nas minhas veias
Turvando a bruma que ali se deixou ficar
Para ouvir as minhas preces.
Nua e sem esconderijo
Trago meu soluço e meu desejo transbordantes
Para o desterro do teu amor.



...


sábado, janeiro 12, 2013

Delicadeza

Quanta bravura empenhamos em cada gesto,
quanto suor,
Quanta lágrima.
Mas nos tornamos cegos ao que é pequeno e belo.
Poder bradar o singelo como sublime,
Isso é para poucos heróis.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Sacramento

O dia me atravessou
fazendo arder meu corpo
Em recordação e desejo.
A noite penetrou em meu sonho
- razão do meu destino
Convidando a dançar.
Recobrei a insanidade
Aos poucos
Afundando minhas mãos
no barro onde esculpiria tua presença.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Sem ti

Fugi de ti
Quando não restou espaço para o meu amor.
Apenas fragmentos de segundos envolviam meu corpo.
Te lembras?
Afugentei teu olhar e corri de tuas mãos que,
doce e suavemente,
acorrentavam minha alma.
Há uma vaga lembrança da tua urgência,
Sentido de meu desespero!
Como despertar do sonho de te haver possuído
E, de ti, avistar apenas o dorso enquanto partes,
Partida em pedaços.
Resta este sabor de aurora,
O peso das horas mortas
E o vazio de existir.