quarta-feira, novembro 14, 2007

Amor de pai.



Foto de João Prates


Amor de pai.

Meu pai me ensinou a amá-lo com palavras rudes.
Na árvore, os galhos quebrantavam de tão secos.

Os braços que ofendiam pesavam mais do que a culpa.
Meu olho se fechava intumescido da arrogância.
Delator infiel, não sabia guardar segredo.

Meus ossos de menino franzino
resistiam aos ensinamentos.
Era a alma que arquejava
como crisálida arrancada do casulo antes do tempo.

A pele, acostumada ao curtume,
tornou a violência transparente.
Apenas meu joelho se dobrou
sob a lição de amar ao pai como o Pai me ensinou.

Uma flor brotou no deserto
Tendo apenas as pedras como travesseiro.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Infância.

Temo que não me compreendas. Bebo da fonte de Caeiro Manoel, Pessoa sempre a me guiar. A infância a busquei no poético, a reencontrei na poesia. Vivo remoçando, revirando do avesso os conceitos que me fizeram deixar de ser livre para inventar o impossível.
Rodopio como o peão e vôo alto como a pipa. Quando retorno, não sou mais a mesma.
Canto a vida e o encanto. Infância é coisa de Egberto, do Palhaço mais sublime e enfeitiçado de todo o planeta música. Também não me compreendes ao oferecer conselhos. Os conselhos foram feitos para ficar armazenados em cartilhas muito chatas e antigas: imóveis, colossais e retrógrados.
Sempre obsoletos. Se chegam onde não há espaço para eles, são rechaçados como intrusos. Se chegam onde já encontram morada, passam desapercebidos ou são tidos como ingenuidades. Melhor saborear a tarde tomando chá de primavera, sonhos recheados de esperança e licor de bobagem, para não esquecer de fugir. O que fazer quando a criança aparece na soleira assustada, saudosa, sábia e cheia de amor para ensinar? Quando o ontem bate à nossa porta pedindo hospedagem, tiramos de nossos armários as mais solenes roupas, cobrimo-lo de fantasias ultrapassadas e festejamos os mortos. Façamos diferente: este nosso hóspede merece novas roupas, sem cheiro de mofo, merece ser coberto de carinho e festejado como um novo amigo. Pessoa repleta de surpresas e inusitado, com uma árvore cheia de troncos na cabeça, contando histórias de encontros e desencontros, juntar e separar. Pessoa com medo de sombra e de escuro, que precisa ser acolhida antes de se deixar adormecer no colo do amigo recém encontrado. Pessoa delicada e amorosa, desejosa de entrar e ficar, pedindo um copo de minutos bem longos para prozear.
Denise Gomes.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Teu segredo




Foto de Paulo Lopes



Onde guardar teu segredo,
se ele tem natureza de pássaro
e, de tão verdadeiro,
não cabe dentro de gaiolas?


Como guardar teu segredo,
se ele é volátil e se expande
tornando-se invisível aos olhos do mundo,
tatuada a lua no teu ventre?

De quem guardar teu segredo,
se ele é o negativo do meu
fazendo de mim um refém
à espera de redenção?


Não me peças para guardar teu segredo.


Como destino, ele não anda nos trilhos,
e a crisálida abandonará em breve o casulo.



segunda-feira, agosto 13, 2007

Amizade

Foto de A. M. Catarino.
http://paralelo77.blogspot.com
Amizade.
Sigo em paralelo com tua existência,
procurando as sombras que derramam de meus passos.
Adoecida da labuta insana no tamanho das horas,
estou sempre atenta aos sinais
que me permitirão refugiar os sentidos e a alma
na palma dos ventos.
Tu, em cada um de teus "eus",
foste o meu sinal neste anoitecer
que vinha pesado nos ombros e ardido nos olhos.
Minha verdade secreta,
que jamais haverei de perscrutar,
pelo simples prazer de simplesmente ser,
hoje, cruzou o teu caminho.
Denise Gomes.

Uma vida simples.


Foto de A. M. Catarino
http://paralelo77.blogspot.com/

Uma vida simples.

Tenho medo da dívida com a vida.
De não ter como quitar.
Dia após dia alimentando, vestindo, ensinando.

Tenho medo da dúvida e das certezas.
De desconhecer o caminho
e apostar na morte sem temer a sorte.

Não deixo filhos ou obras que me eternizem.

Minha memória será guardada em câmara ardente
No silêncio do balbucio do dia seguinte.
O esquecimento se encarregará das cinzas.


Denise Gomes.




quarta-feira, junho 13, 2007

Desvão.

Foto de Mário Alexandre Lopes

Desvão.



O perfume das rosas um dia se esvai.
É um dia de entardecer.

As frutas na fruteira tornam-se cinzas
e a língua fica surda para o seu sabor.

O vermelho, com sua volúpia, anoitece
restando uma claridade ofuscante.

Não é cedo demais?
Indaga o coração encurralado entre a mão e o céu.

O jasmim orvalha suavidade
Como se o jardim ainda pudesse florir.





terça-feira, junho 12, 2007

Nus.


Foto de Margarida Araújo

Nus.


Despir não é apagar, é desenhar.
Esse sussurro de Carpinejar me fez divagar
nas vagas da alma que transpira
mesmo que o outro não mais a veja.

Como se o corpo se apagasse
para ser apenas o prazer do outro.
Como se a mão que toca a pele e a boca que a beija
não desenhassem os limites da entrega e do abandono.

A nudez não nasce para por fim, mas para dar início.
Se não podemos ser olhados desnudos
é porque as unhas daqueles olhos nos fazem sangrar.
Se queremos terminar depressa
é porque estivemos surdos para nossos próprios anseios.

A pele não mente nunca.
Ela transborda em amavios quando se deleita
e esfola, arde, se torna ácida e impenetrável
quando falta o desejo.

Só não vê quem apaga.
E quem não quer ser visto?
Ser desenhado pelas mãos do desejo do outro,
em movimentos inventados, inusitados, insuspeitados?

A distância entre o apagar do outro
e sua pintura pelos gestos do encontro
é como a distância entre a indiferença e o amor.
Quem ama, recria o ser amado.


domingo, maio 27, 2007

Temporada.

Foto de Luis Miguel Afonso.

Temporada.

Se hoje tenho os passos lentos
é porque corri antes do tempo.
Ele não se desespera.

Se ainda não alcancei
é porque o tempo voou.
E eu atrás da quimera.

Se os músculos estão rijos
é porque não esmoreci.
É tempo de primavera.

Denise Gomes.

quarta-feira, abril 18, 2007

Tua lua.



Foto de Pedro Moreira.


Tua lua.


A lua é toda tua
basta admirar.
Ela espera por um dia,
uma poesia,
uma alegria,
desejosa de não mais voar.

É tua a lua lá na rua.
Te fita,
te cativa,
é só deixar entrar.
Corre mundo a espreitar
seguindo sempre de volta
para jamais se apartar.

É tua a lua crua
que cresce e decresce,
desaparece,
costumada a viajar.
Sua curva é silenciosa,
sua calma cautelosa,
sua luz sempre a girar.


É tua a lua ao longe,
se encolhe,
esconde,
querendo pernoitar.
Coberta, inda floresce
e quando escurece
tenta tanto tatear.

É tua a lua nua
sempre à mostra,
pura, pura, pura.
Se encosta,
não desgosta,
só querendo entrar,
ficar,
e não mais deixar.

Denise Gomes.

segunda-feira, abril 16, 2007

Se o amor não existe...




Foto de Bruno Dias.


Se o amor não existe...


Os filósofos nos contam
que a realidade é apenas uma ilusão,
algumas vezes compartilhada,
e não deixamos de confiar em nossa percepção ingênua.

Se o amor é uma ilusão,
é a prova mais sublime de nossa potencialidade para criar.
Pois amar é um verbo definitivo.

O que importa não é amar o pequeno ou o grande,
o frágil ou o forte,
o feio ou o belo
o branco, o vermelho, o preto ou o amarelo.
Importa amar.

O amor cotidiano,
que chama de querido a todo mundo,
que abre um sorriso a cada transeunte,
que deseja de coração um bom dia
ao vizinho, ao motorista, ao porteiro,
ao cobrador, ao ambulante, ao padeiro,
ao frentista, à recepcionista ou ao açougueiro,
é que sinaliza o amor verdadeiro
e prepara para a experiência de amar por inteiro.

Porque amor, para ser,
aceita como encanto cada ruga no rosto do amado,
cada recusa e cada dia mau-humorado.

Porque, amar ao ser beijado,
não é exclusividade de apaixonado.

Se o amor é uma ilusão,
sejamos todos ilusionistas
e criemos um mundo onde cada gesto e cada opinião
sejam motivo de consideração.

Denise Gomes.

sexta-feira, março 30, 2007

Quanto vale?


Foto de Pedro Moreira.


Quanto vale?

Quanto vale o pão,
O teto,
Mão na mão?

Dinheiro
Mercadoria
Coisa
Coisa
Coisa

Nada vale.
Valor não mora em coisa.
Vale a intenção das mãos que entregam.
Vale o olhar que acolhe.

Apenas a pessoa vale antes de nascer.

Vale a ponte mais que o muro
Vale o ombro mais que o punho.
Valem as asas mais que o chão.

Denise Gomes


terça-feira, fevereiro 20, 2007

No deserto de Itabira.




Foto de Paulo Bizarro.



No deserto de Itabira
(Conversa com a “Viagem na Família” de Drummond)


No deserto de Itabira,
Quantos silêncios...
Há uma solidão que não sei onde se esconde,
Uma ausência que se desfaz ausente,
Areia e pó a valsar nos cantos
Como reminiscências de outros ventos.

No deserto de Itabira
Desfaleço em meu suor
Escorrendo do rosto, como lágrimas,
Sob o sol escaldante
Que o mar de histórias me lança.

No deserto de Itabira
Minha infância me faz visita
Brincando de esconder e de achar
No jogo de claro e escuro
Que aos olhos parece miragem
Mas que as entranhas identificam
Como película de familiaridade.

O deserto de Itabira
Corrói o coração menino
Enferrujando o sangue que pulsa.
As veias conduzindo o irrisório riacho,
Já minguando em sua secura,
Entre as pedras que anunciariam a queda.

Ainda viva, a sombra de meu pai.
Caminha a meu lado,
mais companheira do que nunca,
como a despertar-me de sonhos esquecidos.
Não sei como pude me distrair
E conduzir meus passos olvidando-a.

Ainda viva, a sombra de meu pai
Cobre como véu minha própria imagem
De timbres, sinuosidades, ocasos.
Diáfora, segue repetindo, somando novos sentidos;
Diáfise, marca os contornos, distinguindo;
Diáfana, deixa da luz passar o que ilumina.

O tempo perdido
É um tempo que não se perde nunca.
Seu retorno insistente é o que nos ofusca
Contrariando nosso desejo de um devir.
Entre o dia e a noite,
propaga-se nas madrugadas que não adormecem.

O tempo perdido
Enche o peito de voracidade
Querendo engolir os próprios filhos do silêncio.
As asas se abrem em vôo mostrando sua sombra
Que rasteja no húmus para fecundar o solo.

O tempo perdido
Pesa uma tonelada
Quando perpetua o seqüestro de um desejo.
Arma ciladas tornando cegos e surdos
Os que são ávidos de ensejos.

O tempo perdido
Pode morrer.
Sua lápide conterá as flores e os dizeres
que anunciam um novo tempo.

Pois, as lembranças permanecem,
Enchem os olhos de sua verdade
Sem jamais renunciar.
Carregadas em seus tons pastéis
Ou em tonalidades sombrias
Têm o costume de imortalizar.


Pior que não ser dito
É não poder dizer.
A criança muitas vezes não pode escapar
Às dores do corpo e da alma que lhe infringem.
Esta criança espreitava os gestos
Violentos, rudes e imorais
Que desejou exterminar
Sem dizer uma só palavra.

Desejaria, uma só vez, atravessar
Sem estribeiras aquelas circunstâncias
Transmutando os ponteiros e
Regulando os amores
Para que as roupas e os papéis
Se cercassem de pudores.

Mas, o ar se torna rarefeito.
Uma dor apunhala novamente o peito,
Os segredos e as impunidades vividas no leito,
Estase reeditada neste parapeito
Cuja entrada parece não se converter
E o destino ameaça em se perverter.

“De que terão valido tantos sacrifícios?”,
É a pergunta que teima em dizer a seus recordos.
Dor em variados invólucros,
Doses, intensidades.
Dor em graus de consciência e inconsciência.
Dor em diferentes partes do corpo físico
E do corpo erógeno, desejante.

E o que dizer da força que os conduziu a tais encruzilhadas
Que do momento insólito nascia o poeta?
Qual a coragem do pai que enlevou seu nome
Sendo o homem necessário a seu drama,
Na corrente que traía as antigas bandeiras
Desbravadoras cruéis numa terra ainda sem nome?

Parricídio, eis o nome necessário.
Do menino que se torna homem
Um sonho de futuro figurando no espaço infindo
A luta do antigo e do vindouro dentro de si
Já não podendo suportar o peso dos antepassados.

A tragédia sempre esteve ali.
E sempre há de lhe acompanhar,
Seja na forma de sombra, de pegadas ou
De sua imagem no espelho.
Inescapável como o ar.

Das maiores às mais sutis,
Cada uma recusando redenção,
Ardendo na pele como queimadura a ferro,
No estômago como fome insaciável,
No âmago do ser como ofensa imperdoável.

Fala, fala, fala, fala
o poeta, sem cessar, sua fala mansa.
Cobrindo de amor cada mágoa,
Acarinhando de beleza cada chaga,
Abrindo caminho com a enxada
Na corredeira das mesmas águas.

Entranhar-se passa a ser condição,
Que teu pai ainda guarda um abraço,
Que teus braços ainda aguardam.
Que os sinos anunciarão na igreja
Mesmo que ninguém os veja,
Anjos e arcanjos vertendo flores de perdão.

Que por mais que doam as bofetadas,
Por mais que humilhe o alimento negado,
Por mais que desonre o amor desmembrado,
Por mais que envergonhe a solidão abandonada,
Há brasas que mantêm a chama acesa
De um amor que cavalga acima das nuvens.

O mar do sangue que compartilhamos
Flui e revela o que se mantém o mesmo no outro.
Filho de peixe não pita seu cigarro,
Mergulha em águas mais profundas.

Mas, o tempo que revela
Nunca se atrasa,
Jamais se adianta.
Sabedor das tristezas que apavoram os homens
Prepara a ceia para sua chegada,
Quando visões e vislumbres encherão a boca de novos sabores
Preparando o coração para o encontro.

E, só então, nos conhecermos!


Denise Gomes.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Para Mari.

Foto de José Manoel Durão.

Para Mari.

Acreditas em poesia?

Pois poesia está em tudo.
Na maneira como despertamos,
no bom dia que espalhamos,
no sorriso que comungamos,
nos olhares que trocamos,
nas idéias que pensamos,
nos lugares aonde vamos,
na música que ousamos,
no rosto que estampamos.

Acreditar em poesia é ser poliglota,
pois não apenas o mel pode ser doce,
não apenas as estrelas têm seu próprio brilho,
não apenas Deus é puro amor
não é apenas a flor que desabrocha.

Acreditar em poesia é ser vidente,
acreditar na beleza da vida e que ela pode ser plena,
apostar que resolveremos o problema,
que a alma é grande e que a tristeza é serena,
que são os detalhes que conotam a cena.

Acreditar em poesia faz a gente esquecer um pouco de quem a gente é
e pensar que podemos estar em muitos lugares ao mesmo tempo,
que podemos mudar o sofrimento,
que podemos voltar e avançar no tempo,
que podemos voar e ser invisíveis como o vento.

Acreditar em poesia faz a gente desconfiar de que também somos poetas em nossa lida
e que devemos apreciar os poemas que escrevemos com a nossa vida.

15/01/2007
Dina.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Mulher rendeira.



Foto de Jmac - Olhares.com


Eu devia aprender a rendar. Nunca fui prendada para as coisas das mãos, que levam muito tempo para ficarem prontas. Imagine, dias e dias trabalhando e a belezura longe de chegar. E dá vontade de fazer coisas mais animadas, dormir na rede, por exemplo, ou jogar cartas, se é prá ficar ali sentada, ou fazer um bolinho de chuva prá comer com limonada de casca e café bem preto.

Pelo menos, se rendasse, a espera passava. Que espera é muito bonito no papel, no repente, na canção, mas vai agüentar ela, vai. Ela te incomoda pior que coceira, que para esta tem remédio coçar. Ela deixa você parecendo avariado, olhando na direção onde não tem ninguém, demorando prá responder quando perguntam, perdendo as palavras no meio do assunto. A espera te faz presa mansa, que nem tenta fugir, que agrada estar totalmente entregue à sorte e ao azar.

Ou passava a renda. Que, se a espera fosse mais teimosa que os dedos, eles tinham que parar para puxar o tempo. Que no longe nunca se sabe porque demora tanto! A gente pensa nas coisas muito mais depressa do que elas andam e quer que elas acompanhem. O cavalo que tivesse que carregar os pensamentos estava lascado.

Diz que a espera é uma espécie de paragem, um pernoite para os acontecimentos. Nunca ouvi dizer que acontecimento tinha sono! Enquanto eles dormem é a gente que fica sem dormir, com os olhos bem abertos olhando a hora que eles vão acontecer de novo.

Meu filho me falou um negócio interessante. Que existe uma conspiração universal contra a alegria. Já reparou que quando a gente está feliz, dando risada de montão, assistindo um filme bem bom, jogando um bolão, namorando de montão, o tempo ganha asas e sai voando que nem foguete que vai prá lua? Agora eu te pergunto: o que acontece com o tempo quando os acontecimentos adormecem? Ele ri da nossa cara e escolhe a mula mais empacada de condução.
Não sei rendar não, mas essas palavras escritas com leveza e com graça ocupam meus dedos e divertem minha mão, enganando o tempo, que para ouvir a conversa tem que, pelo menos, cavalgar num cavalinho arisco. Será que, se eu rendasse, o fio do meu pensamento também rendia? Que eu já estou rendida.


quarta-feira, janeiro 17, 2007

Desaforo.


Foto: Helder Almeida.

Desaforo.

Nem sempre é a nudez que revela o ser.
Escondido sob a alvura ele pode ofuscar.
Ostentado pela beleza ele pode enfeitiçar.
Fragilizado na entrega ele pode estilhaçar.

Procura-se uma concha.
Silêncio com dimensão de oceano a ecoar.
Janela que emoldura,
Túnel que esconde,
Roupa que aloja,
Forma que transcende.

Dentro se faz escuro e frio.
Mãos pálidas se calam.
Os pés cálidos,
Cegos e surdos, nada pressentem.
Arrojada, a voz entoa seu gemido.

O dentro está sempre a desaforar.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Filhos de um Deus menor?

Foto: Bruno Dias.


Filhos de um Deus menor?

Se a barbárie fosse a mãe de todas as crianças talvez não tivéssemos a quem rogar.
Quem inventou a Deus?
Foi aquele que agonizava ou o que temia pela perda de sua felicidade?

Se os mais desgraçados são filhos de um Deus menor
Mostre-me teu Deus e eu te direi quem és.

Em minha terra há muitos Deuses.
Há liberdade para orar
E há liberdade para não orar.

Muitas vezes os que mais sofrem têm os maiores Deuses.
Deuses que servem de alimento para a alma,
Deuses que preenchem vazios da existência,
Deuses capazes de apaziguar angústias e curar feridas incuráveis.

Filha de um Deus menor,
Oro para que os Deuses maiores
Cubram a Terra do solo sagrado
Que os homens teimam em profanar.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

O divórcio.


Foto de Helena Maria Milheiro.


O divórcio.


É triste.
Acima de tudo, é triste.
Em quaisquer circunstâncias, é triste.
Os meninos são os que mais sofrem, e sofrem calados.
Ainda crianças, não têm palavras para dizer, dizem com o corpo e com suas ações.
E ninguém entende essa linguagem.
Cuidam para que o pior não aconteça.
Mas, o que é o pior?


Saímos dessa situação sempre cheios de marcas doídas. É difícil se sentir inteiro, difícil se olhar no espelho, difícil não se achar feio.
Somos um fracasso, desperdiçamos algo de valor, destruímos uma família...
Somos médico e monstro. Para curar uma dor provocamos outras. E não tem como evitar.
Saída?
O tempo...

No início, a respiração é ofegante, curta, rápida e insuficiente.
As palavras são ásperas, rudes, mesquinhas e vingativas.
Os pensamentos são os piores possíveis.
Sentimos intensamente cada emoção, e não é nada bom.
Há escuridão, que traz o medo.
Não sabemos onde tudo isso vai dar.
Não sabemos se e como iremos sobreviver, cada um de nós.
A dor está em cada peito, em cada coraçãozinho apertado.

E descobrimos que os amigos não sabem o que fazer com a gente.
Eles se afastam.
Uns porque continuam saindo em casais, e não somos mais um casal, outros porque ficam constrangidos com a nossa dor e não têm o que dizer, outros porque, simplesmente, deixam para lá quando mais precisamos deles.

Também descobrimos algo muito precioso: com quem de verdade podemos contar na vida.
É muito bom sentir a força e o apoio de quem nos ama e,
mesmo sem poder tirar a dor do nosso peito,
consegue ser um travesseiro macio para nosso sono intranqüilo.

E descobrimos muita força entre os nossos.
É quando descobrimos que “a família inteira” não existe mais. Somos uma parte, apenas. E isso é lição de vida para umas três ou quatro.
Descobrimos, afinal, que somos seres separados,
que nos unimos uns aos outros por amor,
não apenas por pertencimento genético e consangüinidade.
É amor que torna nosso estar junto tão prazeroso e tão intenso.
As relações crescem.

As coisas vão se assentando.
Construímos novos lares, agora dois, não apenas um.
E os meninos vão e vão.
Sempre correndo atrás de um prejuízo que não é deles.
As casas vão tomando forma nova
e podem começar a ficar confortáveis quando
as alegrias vão se somando e multiplicando.
Quanto mais ficar junto, abraçar em silêncio, chorar por qualquer bobagem, rir à toa correndo um atrás do outro ou jogando um no outro travesseiro, papel amassado, água, pijama usado, bola, almofada da sala, herói de plástico ou castanha, mais as coisas vão parecendo entrar em ordem.

É uma nova ordem, fora da ordem natural das coisas.
Mas acolhe o caos que mora em cada um de nós.
Deixa decantar a dor e aparecer um pouco de luz.
Já tem novas caras no pedaço. Nossa vizinhança mudou.
Mesmo morando no mesmo lugar, fazemos novos amigos.
Faz parte da adaptação ao novo modo de vida.
Separados, nós, os pais, precisamos mais da solidariedade de nossa rede. Quanto mais ampla, colorida e coesa for esta rede, maior a possibilidade de dividir o peso.
Pai e mãe de mãos dadas para cuidar dos filhos ajuda a
não ter sentimento de deslealdade morando dentro dos meninos.
Afinal, quem se separou foram os esposos, não os pais. Nós, feliz ou infelizmente, melhor se restar admiração e confiança mútua, teremos que dividir os cuidados, os custos e as preocupações com os filhos ainda durante muitos e muitos anos.
Mas, os filhos ganham quando têm os dias para estar com o pai
e os dias para estar com a mãe
quando os momentos são pensados para enriquecer a convivência
e reparar as feridas.

Distintos passam a ser também os costumes, as tradições, as crenças
e os meninos saem favorecidos quando são autorizados
a curtir tudo de bom que a mãe oferece
e tudo de bom que o pai oferece.
As diferenças, que outrora foram impeditivas da boa convivência, podem se converter em diversidade fértil.

Os suspiros começam a nascer.
Sinal dos tempos, de um outro tempo,
em que a respiração é mais longa, pausada e quase imperceptível.
Já não há o temor de a qualquer momento o barco virar,
a canoa furar,
a água transbordar...
O pior já passou, vencemos a tormenta.
Sobrevivemos, mas ainda estamos com os pés na lama.
A jornada será, para sempre,
um pouco mais íngreme para cada um de nós.


quarta-feira, janeiro 10, 2007

Cigarro e café.


Foto: Bruno Dias


Cigarro e café.

Borras são borras,
das cinzas, cinzas.
O momento é sóbrio,
mas não é em vão.

Sorvo o café
como sorvia então.
Aspiro seu aroma,
aprecio seu sabor,
seu quente me aquece a palma
mas, minha boca queima.
Amargo e doce vêm e vão.

Névoas se misturam
e eu suspiro a fumaça mansa.
Meu peito se preenche
enquanto a alma, prenhe,
se esvai no vão.

Silente o céu cintila
a calma na escuridão
.


segunda-feira, janeiro 01, 2007

Encarne, viva.

(Foto: Luis Miguel Récio)


ENCARNE, VIVA.
(Para uma amiga dorida)


A tristeza chegou à tua vida sem aviso e sem trégua.
A ponto de te fazer sofrer a maior das metanóias: tiveste que renunciar à alegria.
Tiveste que subir na montanha mais alta sem água, abrigo ou companhia.
Desceste ao poço mais fundo e escuro que a treva criou para o martírio.
Atravessaste o fogo, não apenas as brasas, queimando corpo e alma.
Tu choraste como quem é torturado até a loucura.
Tua pele te foi arrancada do corpo como um réptil.

Mas tens sangue quente, não te arrastas, não resistes ao veneno.
A dor chegou em tua alma ardente como óleo encandescente.
A dor atingiu teu espírito com tanta violência que teu corpo implorou clemência.
Tua dor encarneceu.

E tu conheceste o medo do toque, da proximidade e da intimidade.
Não mais podias acalentar teu frio nos braços de quem amava,
Não mais podias sentar no trono de rainha que o rei te ofertava,
Não mais podias vestir as vestes de fada que teimava em tornear teu semblante.
É que a pele de tua alma estava em carne viva, não podia sequer aceitar as carícias, os beijos, ou o sopro da vida.

Apenas tua voz se ouvia.
Tuas palavras cortantes como navalha na pele,
Suaves como quem suplica,
Brandas como quem sucumbe,
Quentes como quem se apaixona,
Belas como quem encanta,
Precisas como quem tudo sabe...


Mas não sabes mais como alcançar.
As lágrimas, de abundantes, embaçaram teu olhar,
A alegria, de ausente, te impeliu asfixiar,
O cansaço, de extenuante, não te permitiu sair do lugar,
As trevas, de abissais, impuseram temer,
O ardor do fogo, de insuportável, te fez perecer,
A violência da tortura desfigurou teu ser,
Despelada, só restava esvanecer.

A vida veio e te roubou quase tudo
Mas foi como se tivesse levado tudo o que importa.


Impossível para outros, parte de ti, voltaste a sorrir.