segunda-feira, janeiro 15, 2007

O divórcio.


Foto de Helena Maria Milheiro.


O divórcio.


É triste.
Acima de tudo, é triste.
Em quaisquer circunstâncias, é triste.
Os meninos são os que mais sofrem, e sofrem calados.
Ainda crianças, não têm palavras para dizer, dizem com o corpo e com suas ações.
E ninguém entende essa linguagem.
Cuidam para que o pior não aconteça.
Mas, o que é o pior?


Saímos dessa situação sempre cheios de marcas doídas. É difícil se sentir inteiro, difícil se olhar no espelho, difícil não se achar feio.
Somos um fracasso, desperdiçamos algo de valor, destruímos uma família...
Somos médico e monstro. Para curar uma dor provocamos outras. E não tem como evitar.
Saída?
O tempo...

No início, a respiração é ofegante, curta, rápida e insuficiente.
As palavras são ásperas, rudes, mesquinhas e vingativas.
Os pensamentos são os piores possíveis.
Sentimos intensamente cada emoção, e não é nada bom.
Há escuridão, que traz o medo.
Não sabemos onde tudo isso vai dar.
Não sabemos se e como iremos sobreviver, cada um de nós.
A dor está em cada peito, em cada coraçãozinho apertado.

E descobrimos que os amigos não sabem o que fazer com a gente.
Eles se afastam.
Uns porque continuam saindo em casais, e não somos mais um casal, outros porque ficam constrangidos com a nossa dor e não têm o que dizer, outros porque, simplesmente, deixam para lá quando mais precisamos deles.

Também descobrimos algo muito precioso: com quem de verdade podemos contar na vida.
É muito bom sentir a força e o apoio de quem nos ama e,
mesmo sem poder tirar a dor do nosso peito,
consegue ser um travesseiro macio para nosso sono intranqüilo.

E descobrimos muita força entre os nossos.
É quando descobrimos que “a família inteira” não existe mais. Somos uma parte, apenas. E isso é lição de vida para umas três ou quatro.
Descobrimos, afinal, que somos seres separados,
que nos unimos uns aos outros por amor,
não apenas por pertencimento genético e consangüinidade.
É amor que torna nosso estar junto tão prazeroso e tão intenso.
As relações crescem.

As coisas vão se assentando.
Construímos novos lares, agora dois, não apenas um.
E os meninos vão e vão.
Sempre correndo atrás de um prejuízo que não é deles.
As casas vão tomando forma nova
e podem começar a ficar confortáveis quando
as alegrias vão se somando e multiplicando.
Quanto mais ficar junto, abraçar em silêncio, chorar por qualquer bobagem, rir à toa correndo um atrás do outro ou jogando um no outro travesseiro, papel amassado, água, pijama usado, bola, almofada da sala, herói de plástico ou castanha, mais as coisas vão parecendo entrar em ordem.

É uma nova ordem, fora da ordem natural das coisas.
Mas acolhe o caos que mora em cada um de nós.
Deixa decantar a dor e aparecer um pouco de luz.
Já tem novas caras no pedaço. Nossa vizinhança mudou.
Mesmo morando no mesmo lugar, fazemos novos amigos.
Faz parte da adaptação ao novo modo de vida.
Separados, nós, os pais, precisamos mais da solidariedade de nossa rede. Quanto mais ampla, colorida e coesa for esta rede, maior a possibilidade de dividir o peso.
Pai e mãe de mãos dadas para cuidar dos filhos ajuda a
não ter sentimento de deslealdade morando dentro dos meninos.
Afinal, quem se separou foram os esposos, não os pais. Nós, feliz ou infelizmente, melhor se restar admiração e confiança mútua, teremos que dividir os cuidados, os custos e as preocupações com os filhos ainda durante muitos e muitos anos.
Mas, os filhos ganham quando têm os dias para estar com o pai
e os dias para estar com a mãe
quando os momentos são pensados para enriquecer a convivência
e reparar as feridas.

Distintos passam a ser também os costumes, as tradições, as crenças
e os meninos saem favorecidos quando são autorizados
a curtir tudo de bom que a mãe oferece
e tudo de bom que o pai oferece.
As diferenças, que outrora foram impeditivas da boa convivência, podem se converter em diversidade fértil.

Os suspiros começam a nascer.
Sinal dos tempos, de um outro tempo,
em que a respiração é mais longa, pausada e quase imperceptível.
Já não há o temor de a qualquer momento o barco virar,
a canoa furar,
a água transbordar...
O pior já passou, vencemos a tormenta.
Sobrevivemos, mas ainda estamos com os pés na lama.
A jornada será, para sempre,
um pouco mais íngreme para cada um de nós.


2 comentários:

Anônimo disse...

Nossa, que texto lindo, veio mesmo do fundo da alma... sabe, por questões várias este é um tema que tem me interessado, me intrigado, até mesmo me aborrecido algumas horas... e foi muito bom ler um depoimento tão verdadeiro e que vai de encontro com muito do que penso,apesar de não ter vivido essa dor específica. E algumas dores só quem já viveu é que conhece mesmo, não é...
beijos,

Anônimo disse...

Dá para perceber que é alguém de muita coragem, que sofre sem se esquecer dos outros e procura lançar pontes, abrir caminhos novos para alcançar a estrada.