segunda-feira, janeiro 01, 2007

Encarne, viva.

(Foto: Luis Miguel Récio)


ENCARNE, VIVA.
(Para uma amiga dorida)


A tristeza chegou à tua vida sem aviso e sem trégua.
A ponto de te fazer sofrer a maior das metanóias: tiveste que renunciar à alegria.
Tiveste que subir na montanha mais alta sem água, abrigo ou companhia.
Desceste ao poço mais fundo e escuro que a treva criou para o martírio.
Atravessaste o fogo, não apenas as brasas, queimando corpo e alma.
Tu choraste como quem é torturado até a loucura.
Tua pele te foi arrancada do corpo como um réptil.

Mas tens sangue quente, não te arrastas, não resistes ao veneno.
A dor chegou em tua alma ardente como óleo encandescente.
A dor atingiu teu espírito com tanta violência que teu corpo implorou clemência.
Tua dor encarneceu.

E tu conheceste o medo do toque, da proximidade e da intimidade.
Não mais podias acalentar teu frio nos braços de quem amava,
Não mais podias sentar no trono de rainha que o rei te ofertava,
Não mais podias vestir as vestes de fada que teimava em tornear teu semblante.
É que a pele de tua alma estava em carne viva, não podia sequer aceitar as carícias, os beijos, ou o sopro da vida.

Apenas tua voz se ouvia.
Tuas palavras cortantes como navalha na pele,
Suaves como quem suplica,
Brandas como quem sucumbe,
Quentes como quem se apaixona,
Belas como quem encanta,
Precisas como quem tudo sabe...


Mas não sabes mais como alcançar.
As lágrimas, de abundantes, embaçaram teu olhar,
A alegria, de ausente, te impeliu asfixiar,
O cansaço, de extenuante, não te permitiu sair do lugar,
As trevas, de abissais, impuseram temer,
O ardor do fogo, de insuportável, te fez perecer,
A violência da tortura desfigurou teu ser,
Despelada, só restava esvanecer.

A vida veio e te roubou quase tudo
Mas foi como se tivesse levado tudo o que importa.


Impossível para outros, parte de ti, voltaste a sorrir.

4 comentários:

Mari Marinaro disse...

Denise querida, você só reforça a teoria de Julián Mariás. Ele adoraria te conhecer e eu agradeço esse privilégio. O poema é mais que um presente, é uma lágrima, um sorriso, uma linda recompensa. Te adoro, não estranhe por ter sido tão rápido. Você é muito intensa. Sua amiga, Mari

Anônimo disse...

Parabéns , Denise , o texto é muito forte e bonito.Beijos do Fabio.

Alexandre M. Pedroso disse...

Denise,

Admiro muito quem tem coragem e competência para publicar os seus sentimentos. Parabéns pelo Blog, os textos são tocantes e envolventes.
Espero te encontrar em breve.
Bjs,
Mendonça - CSL

Anônimo disse...

Lindo o texto. E quem é que nunca se identificou com estes sentimentos?! Na verdade quando eu li, dei graças a Deus de pelo menos neste momento da minha vida não ter cada célula do meu corpo se identificando... se fosse há pouco tempo atrás..rs... Bjo!