domingo, dezembro 14, 2008

Traições.



(Foto: João Matos)


Traições.


Brincar,
quando as trevas iluminam o caminho.
Poupar,
quando o momento exige investimento.
Ficar,
quando o que está estagnado pede movimento.
Ceder,
quando se trata de algo imprescindível.
Duvidar,
quando tudo depende da confiança mútua.
Acelerar,
quando o processo de mudança caminha a passos lentos.
Aparência,
quando a dor não mostra sua face.
Dormir,
quando a presença se torna insuportável.
Comer,
quando a angústia consome todo o seu ser.
Fumar,
quando não resta saída, senão entorpecer.
Sorrir,
quando é honesto chorar.
Enfeitar-se,
quando só se pede um olhar.
Fazer planos,
quando os sonhos permanecem adormecidos.
Produzir,
quando se esquece o sentido da luta.
Agüentar,
quando a alegria e a felicidade já não são almejadas.
Suspirar,
quando é necessário fôlego para terminar a jornada.
Cobrar,
quando o outro não tem como quitar.
Acusar,
quando tudo o que se deseja é o entendimento.
Fazer amor,
quando o toque nos confirma a perda do encantamento.Controlar,
quando é necessário ter liberdade para crescer.
Calar,
quando o que se tem a dizer é que cria a diferença que faz a diferença.
Deprimir,
quando é de sua responsabilidade.
Desistir,
quando não se tentaram todos os recursos.
Festejar,
quando os olhos já não podem se encontrar.
Conter-se,
quando o sangue ferve.
Recolher-se,
quando a solicitação aumenta.
Arrumar,
quando a assepsia esteriliza.
Recriminar,
quando a aceitação é o solo em que se pisa.
Continuar,
quando já não se tem o que dizer.
Traições que se cometem em nome de não trair.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Labirinto

Foto de Manuela Vaz

Labirinto


Quando a vida pulsa

além do que alcanço

não encontro palavras.


Perdida em meus próprios túneis

penetro no labirinto

ávida por encontrar

aquele que irá me devorar.

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quarta-feira, agosto 06, 2008

domingo, julho 27, 2008

Não perca o seu latim

Foto de Luísa Louro
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Não perca o seu latim
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Não perca o seu latim
fazendo promessas prá mim
(bis)
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Faz tempo, não é de hoje
que suas palavras são campim
não valem uma banana
não iludem nem um curumim
às vezes até me diverte
tu dissimulando assim!
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Não perca o seu latim
fazendo promessas prá mim
(bis)
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Contigo era só alegria
na praia, no morro ou no bar
nos dedos a harmonia
eu no desatino a cantar
comida era tu quem fazias
carneiro, feijão, vatapá.
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Não perca o seu latim
fazendo promessas prá mim
(bis)
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As páginas estão viradas
o que passou, já passou
se hoje eu dou risada
é que, enfim, supurou.
O dia raiou distante,
a tempestade cessou.
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Não perca o seu latim
fazendo promessas prá mim
(bis)
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Estrela Pantanal



Foto por Ricardo T. Alves [ www.ricardoalves.net ]



Estrela Pantanal



Nessa rua, nessa rua,

todo mundo tem lugar

cada um fale por si

Vem prá roda, vem sambar


Nessa rua, nessa rua,

cada um venda seu peixe

João, Maria, Antonieta,

Paulo, César, Valdemar.


Nessa rua, nessa rua,

dá vontade de ficar

galo canta, vida chama

tô querendo me achar


Nessa rua, nessa rua,

passa a história a caminhar

Ei, você, aí parado

vem prá roda, vem sambar


Nessa rua, nessa rua,

vou pintar, fazer sarau

nesse céu de São Miguel

brilha a Estrela Pantanal

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Em parceria com Tiago Rocha

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terça-feira, julho 08, 2008

Novelo

Foto de Paulo Marques



quero enovelar-me contigo
trançando pernas
enroscando abraços
me perdendo no espaço
demorando no tempo
como se mergulhasse
em ondas de perdição
enlouquecendo um pouco
fazendo a vida parar
e, apenas sentidos,
parecer que me encontrasse

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segunda-feira, junho 30, 2008

Vindouro

Foto de Vasco Oliveira

Vindouro


Das folhas verdes
não vemos o inverno
Folgamos livres
de pesar ou temor

O destino
é um canteiro de obras
Sem aviso
ou contra-mão

Sobre a lápide estreita
coberta de flores
jaz a primavera
jurada de vida
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Quimeras

Foto de Eduardo Almeida
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Quimeras


Nunca te prometi
rosas vermelhas.
Mas, o que são palavras?
Gostaria de ter enviado.

A distância entre o que foi
e o que poderia ter sido.
Ah! As distâncias!
Sempre a te ofuscar de mim.

Lado a lado duas quimeras
gotejam um aljôfar de candura.
Teu sangue e teu espinho
sempre a despetalar-me.
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domingo, junho 29, 2008

Artesão

Foto de JMF Coutinho [José M F Coutinho]
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Artesão
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Segura minha mão
ao modo do artesão
fazendo-me viver
por obra do teu querer.
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Conforma meus movimentos
com a firmeza de teu pinçar
dando vida ao não nascido
nessa mulher por rebentar.
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Faz do meu barro
a massa do teu pão
alimentando tua alma
no leito do meu vulcão.
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Mãos de uma vida


Foto de Luis Ventura
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Mãos de uma vida
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Já não trago tabaco, vinho,
ou mãos vazias.
Depois de tanto caminhar,
peso sobre a bengala.
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Doces os frutos colhidos,
amargas suas raízes
arrancadas ao dissabor
de um tempo que não vivi.
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Tateio com o rosto ao vento
a ver que ares sopram do horizonte.
Selo meu cavalo mais manso
pois, longe não vou mais, não.
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Tua mão

Foto de Alberto Alves
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Tua mão
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A mão que me segura
é aquela em que me pego
Leve, se oferece
sem pressa ou opressão
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Oscilo no ar
entre dançar e cair
No desenho dos meus passos
estão teus dedos a conduzir
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Seu toque abre meus olhos
me tira da escuridão
O mundo, então, se oferece
a meus pés no tato da mão.
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quinta-feira, junho 12, 2008

Em si mesmo.



Foto de Inácio Silva
www.inaciosilva.com


Em si mesmo



Adentrou no mar revolto
como era de seu costume
impossível saber quando retornaria



O turbilhão o tomava todo
lambendo sua pele com o sal
torcendo seu corpo com as ondas
deixando-o sem fôlego nas águas turvas e violentas


Não que isso o assustasse
Era o seu refúgio
Lugar de reencontrar o elo perdido
quando nem ele mesmo dava notícia de si


Aquela solidão era necessária
assim como o desassossego


Ausente da praia podia se espraiar
mergulhar em busca do que não sabia
converter dias em eternidade
sendo ele mesmo a única medida
a única referência
âncora e vela
correnteza e ventania.


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quinta-feira, junho 05, 2008


Foto de Ricardo Cordeiro
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Uma lua me sorriu
Crescente


Um vórtice de cor púrpura
Me tirou do chão e me lançou aos céus
Onde flutuei como luz
Ora dourada, ora prateada
Ficando cega
Virando espuma
Morrendo no mar
Ganhando asas.
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domingo, maio 25, 2008

Homem caleidoscópio.



Foto de Antônio Durães


Homem caleidoscópio.


Homem,
teu caleidoscópio me fascina
revelando faces
fases
matizes
viezes
do teu viver extemporâneo
mitigado de contradições
acolhidas
numa estética barroca.
Homem tão forte
guerreiro,
protetor,
justo.
Pesam as balanças
em caminhos cruzados que jamais se encontram.
Teu coração se aperta
Cai uma lágrima sobre o tatami
Numa luta em que apenas tu
tens a perder.

Meu homem,
vens do meu ventre
ávido de teus amores
e de teus furores.
Tua pele,
tão sensível,
que curas com tuas próprias lambidas
Teus músculos,
tão vigorosos,
que ardem do extenuante esforço
Tua labuta,
incansável,
que já não preenche o vazio da alma.

Deixa-me cuidar de ti.
Banhar tua pele em alfazema
acariciando,
soprando,
aliviando tuas feridas.
Massagear teus músculos
relaxando,
desatando os nós,
dividindo contigo o peso dos teus dias.
Quem sabe, reduzir a faina
ofertando momentos de prazer
e cumplicidade
trazendo o sonho para as tuas noites.
Deixa-me ser
o repouso do guerreiro.


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quarta-feira, maio 21, 2008

Trapezista



Foto de Joaquim Fial



Trapezista



Serei tua rede, quando,

porventura,

o chão se abrir sob teus pés.


Do amor entendo um pouco,

pois me ensinas a cada instante.


Todo gesto em ti é amoroso.

Tudo em procurar alcançar,

tudo em desejar se encontrar.


Serei eu teu esconderijo,

quando,

no inverno próximo,

necessitares abrigo.
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Aquecerei tuas frias tardes,

acobertando a dor

no calor do meu colo,

na suavidade da carícia que minha língua deitará sobre a tua pele,

aliviando tua carne maltrada,

na firmeza com que vou segurar tuas mãos,

para jamais esqueceres que tens para onde ir.


Serei tua canção,

quando, porventura,

teu coração falhar.

Entoarei teu ritmo,

para voltares a se escutar,

encontrando, novamente,

tua alegria.

Cantarei ao teu ouvido,

para me saberes real e tua.


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terça-feira, maio 20, 2008

Mínima III



Foto de Carlos C (O Maltês)



Paixão
Vida a se deixar
Sem aprisionar a morte

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Sombrio seria aprisionar a paixão para que ela não morresse.
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domingo, maio 18, 2008

domingo, maio 11, 2008

tua mãe




Foto de Fernando Quintinho Estevão



Se fosse tua mãe,

o desejaria iluminado

e o manteria sempre protegido

dos raios que assolassem sobre ti.


Se fosse eu tua mãe,

caminharias sempre

por terras férteis

pés descalços,

peito aberto,

alma resplandecente.


Se eu fosse tua mãe,

carregarias quimeras nos ombros,

verias tua imagem refletida em espelhos que não são de narciso

e viverias uma vida tão plena

que não temerias o derradeiro.


Se pudesse eu ser tua mãe,

nascerias do amor do homem e da mulher,

da carne na carne,

feliz do desejo que te fez homem,

sempre seguro da minha presença.

Jamais experimentarias o desamparo.


Se eu fosse tua mãe,

te amaria como jamais alguém sonhou ser amado,
orgulhosa da mãe cautelosa e amorosa que reside em mim.


Denise Gomes.


sexta-feira, maio 09, 2008

Crisálida


Foto de Gustavo Boaventura




Tudo é possível até a encruzilhada.

Leste e oeste dividem nosso norte

Havendo ali chegado

De acaso e quereres intransitivos.


Cabelos ao vento, bolsos vazios

Negam garantias de desapego.

A pele curtida do sol

É o avesso da armadura.


Solene é o instante imóvel.

Paralisia do diafragma, suspenção do arbítrio.

Diante do desígnio infinito

Cada lagarta repudia a seda.


Denise Gomes.







sexta-feira, abril 25, 2008

Humilhação



Foto de Vitor Nunes


Humilhação


Jogaram meu chapéu na lama
e desci da calçada

Construíram um muro de mil atrocidades
e explodi uma bomba no ônibus

Plantaram combustível por todo lado
e alimentei meus filhos com meu fogo


quarta-feira, abril 23, 2008

Impotência




Foto de


Te oferto minha impotência
diante do teu sofrimento.


Se eu pudesse,

tiraria todo o peso do teu peito.

Tua dor.

Se pudesse,

respiravas aliviado e amanhecias renovado de esperanças.

Teu devir.

Se pudesse,

abririas os olhos e só verias as cores que te aprazem.

Tua cura.

Se pudesse,

te carregava ao colo, repouso do guerreiro.

Tua solidão.

Se pudesse,

encontrarias todas as chaves,

todas as portas,

todos os caminhos

e todas as saídas.

Tua liberdade.


Denise Gomes.