segunda-feira, janeiro 29, 2007

Mulher rendeira.



Foto de Jmac - Olhares.com


Eu devia aprender a rendar. Nunca fui prendada para as coisas das mãos, que levam muito tempo para ficarem prontas. Imagine, dias e dias trabalhando e a belezura longe de chegar. E dá vontade de fazer coisas mais animadas, dormir na rede, por exemplo, ou jogar cartas, se é prá ficar ali sentada, ou fazer um bolinho de chuva prá comer com limonada de casca e café bem preto.

Pelo menos, se rendasse, a espera passava. Que espera é muito bonito no papel, no repente, na canção, mas vai agüentar ela, vai. Ela te incomoda pior que coceira, que para esta tem remédio coçar. Ela deixa você parecendo avariado, olhando na direção onde não tem ninguém, demorando prá responder quando perguntam, perdendo as palavras no meio do assunto. A espera te faz presa mansa, que nem tenta fugir, que agrada estar totalmente entregue à sorte e ao azar.

Ou passava a renda. Que, se a espera fosse mais teimosa que os dedos, eles tinham que parar para puxar o tempo. Que no longe nunca se sabe porque demora tanto! A gente pensa nas coisas muito mais depressa do que elas andam e quer que elas acompanhem. O cavalo que tivesse que carregar os pensamentos estava lascado.

Diz que a espera é uma espécie de paragem, um pernoite para os acontecimentos. Nunca ouvi dizer que acontecimento tinha sono! Enquanto eles dormem é a gente que fica sem dormir, com os olhos bem abertos olhando a hora que eles vão acontecer de novo.

Meu filho me falou um negócio interessante. Que existe uma conspiração universal contra a alegria. Já reparou que quando a gente está feliz, dando risada de montão, assistindo um filme bem bom, jogando um bolão, namorando de montão, o tempo ganha asas e sai voando que nem foguete que vai prá lua? Agora eu te pergunto: o que acontece com o tempo quando os acontecimentos adormecem? Ele ri da nossa cara e escolhe a mula mais empacada de condução.
Não sei rendar não, mas essas palavras escritas com leveza e com graça ocupam meus dedos e divertem minha mão, enganando o tempo, que para ouvir a conversa tem que, pelo menos, cavalgar num cavalinho arisco. Será que, se eu rendasse, o fio do meu pensamento também rendia? Que eu já estou rendida.


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