Postagens

Quanto vale?

Imagem
Foto de Pedro Moreira. Quanto vale? Quanto vale o pão, O teto, Mão na mão? Dinheiro Mercadoria Coisa Coisa Coisa Nada vale. Valor não mora em coisa. Vale a intenção das mãos que entregam. Vale o olhar que acolhe. Apenas a pessoa vale antes de nascer. Vale a ponte mais que o muro Vale o ombro mais que o punho. Valem as asas mais que o chão. Denise Gomes

No deserto de Itabira.

Imagem
Foto de Paulo Bizarro. No deserto de Itabira (Conversa com a “Viagem na Família” de Drummond) No deserto de Itabira, Quantos silêncios... Há uma solidão que não sei onde se esconde, Uma ausência que se desfaz ausente, Areia e pó a valsar nos cantos Como reminiscências de outros ventos. No deserto de Itabira Desfaleço em meu suor Escorrendo do rosto, como lágrimas, Sob o sol escaldante Que o mar de histórias me lança. No deserto de Itabira Minha infância me faz visita Brincando de esconder e de achar No jogo de claro e escuro Que aos olhos parece miragem Mas que as entranhas identificam Como película de familiaridade. O deserto de Itabira Corrói o coração menino Enferrujando o sangue que pulsa. As veias conduzindo o irrisório riacho, Já minguando em sua secura, Entre as pedras que anunciariam a queda. Ainda viva, a sombra de meu pai. Caminha a meu lado, mais companheira do que nunca, como a despertar-me de sonhos esquecidos. Não sei como pude me distrair E conduzir meus passos olvidando...

Para Mari.

Imagem
Foto de José Manoel Durão. Para Mari. Acreditas em poesia? Pois poesia está em tudo. Na maneira como despertamos, no bom dia que espalhamos, no sorriso que comungamos, nos olhares que trocamos, nas idéias que pensamos, nos lugares aonde vamos, na música que ousamos, no rosto que estampamos. Acreditar em poesia é ser poliglota, pois não apenas o mel pode ser doce, não apenas as estrelas têm seu próprio brilho, não apenas Deus é puro amor não é apenas a flor que desabrocha. Acreditar em poesia é ser vidente, acreditar na beleza da vida e que ela pode ser plena, apostar que resolveremos o problema, que a alma é grande e que a tristeza é serena, que são os detalhes que conotam a cena. Acreditar em poesia faz a gente esquecer um pouco de quem a gente é e pensar que podemos estar em muitos lugares ao mesmo tempo, que podemos mudar o sofrimento, que podemos voltar e avançar no tempo, que podemos voar e ser invisíveis como o vento. Acreditar em poesia faz a gente desconfiar de que também somos...

Desaforo.

Imagem
Foto: Helder Almeida. Desaforo. Nem sempre é a nudez que revela o ser. Escondido sob a alvura ele pode ofuscar. Ostentado pela beleza ele pode enfeitiçar. Fragilizado na entrega ele pode estilhaçar. Procura-se uma concha. Silêncio com dimensão de oceano a ecoar. Janela que emoldura, Túnel que esconde, Roupa que aloja, Forma que transcende. Dentro se faz escuro e frio. Mãos pálidas se calam. Os pés cálidos, Cegos e surdos, nada pressentem. Arrojada, a voz entoa seu gemido. O dentro está sempre a desaforar.

Filhos de um Deus menor?

Imagem
Foto: Bruno Dias. Filhos de um Deus menor? Se a barbárie fosse a mãe de todas as crianças talvez não tivéssemos a quem rogar. Quem inventou a Deus? Foi aquele que agonizava ou o que temia pela perda de sua felicidade? Se os mais desgraçados são filhos de um Deus menor Mostre-me teu Deus e eu te direi quem és. Em minha terra há muitos Deuses. Há liberdade para orar E há liberdade para não orar. Muitas vezes os que mais sofrem têm os maiores Deuses. Deuses que servem de alimento para a alma, Deuses que preenchem vazios da existência, Deuses capazes de apaziguar angústias e curar feridas incuráveis. Filha de um Deus menor, Oro para que os Deuses maiores Cubram a Terra do solo sagrado Que os homens teimam em profanar.

O divórcio.

Imagem
Foto de Helena Maria Milheiro. O divórcio. É triste. Acima de tudo, é triste. Em quaisquer circunstâncias, é triste. Os meninos são os que mais sofrem, e sofrem calados. Ainda crianças, não têm palavras para dizer, dizem com o corpo e com suas ações. E ninguém entende essa linguagem. Cuidam para que o pior não aconteça. Mas, o que é o pior? Saímos dessa situação sempre cheios de marcas doídas. É difícil se sentir inteiro, difícil se olhar no espelho, difícil não se achar feio. Somos um fracasso, desperdiçamos algo de valor, destruímos uma família... Somos médico e monstro. Para curar uma dor provocamos outras. E não tem como evitar. Saída? O tempo... No início, a respiração é ofegante, curta, rápida e insuficiente. As palavras são ásperas, rudes, mesquinhas e vingativas. Os pensamentos são os piores possíveis. Sentimos intensamente cada emoção, e não é nada bom. Há escuridão, que traz o medo. Não sabemos onde tudo isso vai dar. Não sabemos se e como iremos sobreviver, cada um de nós...

Cigarro e café.

Imagem
Foto: Bruno Dias Cigarro e café. Borras são borras, das cinzas, cinzas. O momento é sóbrio, mas não é em vão. Sorvo o café como sorvia então. Aspiro seu aroma, aprecio seu sabor, seu quente me aquece a palma mas, minha boca queima. Amargo e doce vêm e vão. Névoas se misturam e eu suspiro a fumaça mansa. Meu peito se preenche enquanto a alma, prenhe, se esvai no vão. Silente o céu cintila a calma na escuridão .